A CRISE DO INTELECTUAL LEGISLADOR E A ASCENSÃO DO INTÉRPRETE – JOSÉ E 34 LETRAS
Simone Regina Dias - UFSC
O presente trabalho está inserido em um projeto que tem o intuito de refletir sobre os discursos que construíram uma parte da história do periodismo cultural das últimas décadas, a partir do mapeamento das revistas literárias e culturais que circularam no Brasil dos anos 70 aos 90.
Neste estudo, em que desenvolvi a dissertação de mestrado, parti da análise de duas revistas cariocas: a primeira, José – Literatura, Crítica & Arte, teve dez números publicados no Rio de Janeiro durante os anos de 1976 a 1978, e a outra, 34 Letras, contemplou o fim da década de 80 (mais precisamente de 1988 a 1990). A escolha da leitura dos dois periódicos não foi aleatória e parte do que considero “pontos de encontro” das duas revistas: ambas foram publicadas no Rio de Janeiro, têm a literatura no primeiro plano de suas abordagens, abrem espaço considerável à publicação de poemas, sendo que estes marcam o início das duas trajetórias (no caso de José, o nome já denuncia a referência, e, em 34 Letras, a primeira capa estampa um poema de Íbis, heterônimo de Fernando Pessoa), além do fato de que vários dos colaboradores são comuns às duas publicações, como o caso de Luiz Costa Lima, Sebastião Uchoa Leite, Augusto de Campos, Jorge Wanderley, Flora Süssekind e Silviano Santiago. A partir do mapeamento e da análise do material lido, várias hipóteses foram se armando, sendo que algumas delas são aqui apresentadas.
À primeira vista, poderíamos dizer que José e 34 Letras se encaixam no conceito de revista literária que se utiliza comumente, lida como uma das redes da crítica que funciona como instância de consagração. O pesquisador José M. Otero, em 30 años de revistas literárias argentinas, distingue algumas características que lhe servem para delimitar o significado de “revista literária”: a existência efêmera, as tiragens reduzidas, a ausência de espaços publicitários, a escassez de recursos financeiros e, finalmente, como conseqüência, o reduzido circuito comercial de distribuição[1]. Além disso, poderíamos acrescentar a idéia de que a revista se constitui como expressão de um determinado grupo de intelectuais, que utiliza o espaço para manifestar e difundir seus pensamentos[2].
Ainda que 34 Letras não tenha enfrentado o problema de escassez de recursos, os demais traços marcam as duas produções, que não tratam, entretanto, exclusivamente de literatura. O comentário de Beatriz Sarlo e Carlos Altamirano também nos interessa, ao enfatizarem que a revista literária, espaço articulador de discursos de e sobre a literatura, tende a organizar seu público, entendido como a área de leitores que a reconhece como instância de opinião intelectual autorizada.
Ao tomar o periódico como local de confluências e de trocas, a primeira problematização, nos casos em estudo, residiria na dificuldade em identificar os princípios que conferem identidade aos dois “grupos”. Em José, ainda que possamos tomar o modernismo brasileiro como paradigma da revista, é cabível enfatizar a convivência de posicionamentos estéticos distintos. Na tentativa agônica de definir os limites do literário e o papel do intelectual, de esboçar um perfil para uma revista literária em fins dos 70, frente à necessidade de definir o público leitor, a revista sucumbe e deixa de circular.
Já em 34 Letras, outra problemática se delineia diante da convivência pacífica de uma miscelânea de vertentes e linhagens que circulam lado a lado no periódico. Não há, como em José, a busca por um denominador comum. No lugar de valores e rechaços compartilhados, nem pensemos em doutrinas e manifestos: ganha voz a busca pela pluralidade, cujo resultado é uma bricolage de estilos — um poema concreto ao lado de Shakespeare—, que se soma ao processo de des-hierarquização — autores desconhecidos ao lado de consagrados.
Leio José como o canto do cisne, ou seja, a última “revista modernista”, em crise diante das definições que ensaia para si. José expõe ainda o dilema das revistas literárias nos fins dos anos 70: ser uma revista elitista, voltada para um público especializado, ao mesmo tempo em que precisa vender para se manter no mercado.
Com relação a 34 Letras, podemos dizer que, apesar de, aparentemente, parecer uma revista de depois da queda do muro, entre alta cultura e cultura de massa, várias de suas estratégias a situam justamente como guardiã da noção de “cultura elevada”.
Ao observar a trajetória de José e 34 Letras, tomando-as como dois grandes relatos, procurei observar as escolhas temáticas, os editoriais, os traços que marcam as duas publicações, assim como as referências teóricas, as escolhas de colaboradores e as tensões que as permeiam. Isso permitiu pensar as revistas através de duas metáforas, a do legislador e a do intérprete, capazes de dramatizar o conflito que se pode ler. Em sucintas palavras, o intelectual legislador pressupõe a possibilidade de se fazer pronunciamentos de autoridade que arbitram as normas da arte, estabelecendo hierarquias e definindo o juízo artístico, enquanto que o intérprete prevê a vigência de pontos de vista que diferem entre si, sendo que sua tarefa consiste em traduzir as tradições culturais.
É preciso dizer que ambas as revistas refletem de forma aguda e emblemática o fim de década a qual pertencem. São sintomáticas do momento cultural em que emergem e carregam os impasses que as circundam. Obviamente, respondem de forma particular a estes, a partir dos quais é possível delinear os pontos de diálogo e de tensão estabelecidos na leitura das duas formações críticas.
A primeira revista, José, fruto da reunião de um grupo de pernambucanos no Rio de Janeiro, é lida como um dos movimentos difusos do Modernismo de 22, e fornece testemunho da crise da figura do legislador. Ou seja, vimos tomar forma em José um legislador angustiado, que assiste, inequivocamente, neste período de transição no Brasil que são os fins dos setenta, aos recuos dos marcos de avaliação. O perfil do crítico que aparece como modelo em José ainda se apóia no julgamento, e, nesse sentido, as entrevistas com Alceu Amoroso Lima e Otto Maria Carpeaux são emblemáticas, ao apresentarem considerações que refletem a crise diante do declínio da autoridade. Os debates promovidos pelo periódico também fornecem indícios do mal-estar diante da tarefa de definir os critérios de qualidade literária, ou seja, de estabelecer critérios de julgamento. Dessa forma, podemos sugerir que José nega a evidência quando ainda se apóia no ato de arbitrar. Ao mesmo tempo, testemunha os dilemas do momento de transição. Quero dizer, diante da consolidação da indústria cultural, marcada pela ampliação do mercado editorial, José se vê frente ao dilema: como manter a “alta literatura” sem ser uma alternativa de massa? Com um olhar crítico no que concerne à cultura de massa, a revista parece buscar, nos debates, uma saída, uma possibilidade de conjugação entre manter os valores literários e, ao mesmo tempo, vender a revista. Na medida em que lia os textos publicados, fossem de literatura, arquitetura ou bibliologia, observei a preponderância de uma perspectiva nostálgica e de angústia frente ao impasse, o que nos remete ao poema drummondiano que batiza a revista.
Em 34 Letras, a leitura dos textos e das estratégias (divulgadas ou) adotadas pela revista demonstra que a angústia do legislador foi praticamente descartada; em seu lugar, ganha voz a busca pela pluralidade, havendo espaço e dinheiro para abrigar várias linhagens da crítica contemporânea, sendo que, no que se refere à poesia, o lugar de honra é ocupado pelo concretismo. Ao se imputar os rótulos de “não-comercial” e “não-institucional”, 34 Letras procurava se beneficiar de uma suposta autonomia tanto com relação ao mercado quanto com alguma instituição. Além da ascendência da tradução (fenômeno da década de 80 no periodismo brasileiro), outro traço de 34 é o que podemos chamar de bricolage, a estratégia de compor um diálogo publicando ensaios e excertos sobre uma mesma temática que se provocam e se acotovelam. Vale dizer ainda que essa bricolage é montada com a publicação, lado a lado, de consagrados e “desconhecidos”, na qual se lê tanto o processo de deshierarquização, que ganha grandes proporções em nossos dias, quanto se percebe o que chamei de “adesismo”. Ou seja, diria que há uma tentativa de se legitimar alguns nomes na esteira de outros. Refletindo sobre as práticas de 34, tive o intuito de problematizar a possibilidade de pensá-la como uma revista pós-moderna.
Penso que convém tratar de uma formulação proposta por Mattei Calinescu, que alude ao problema de uma certa estagnação da cena contemporânea, afirmando que o novo já não é novo. Reflete sobre a arte pós-moderna sugerindo um contraponto com a vanguarda, que estava imbuída da dupla tarefa: destruir e inventar. Certamente, a negação se constitui como o momento significante na ambivalente lógica da inovação radical: é o velho, o passado institucionalizado, a biblioteca e o museu, o que deve ser efetivamente rechaçado e desmistificado. Podemos dizer, ainda com Calinescu, que a pós-modernidade abandona as constrições da vanguarda e opta antes por uma lógica da renovação que pela inovação radical, entrando num vivo diálogo reconstrutivo com o velho e o passado. Esse também pode ser lido como o caminho de 34 Letras, em que estéticas mutuamente excludentes coexistem, em que textos que se chocam dividem as páginas de um mesmo periódico. Com relação às vanguardas, vimos que o êxito e o sucesso as transformaram na ‘condição crônica’ da arte, sendo que a repetição de suas estratégias ou de seus discursos perde o vigor de ruptura e aparece agora com outros propósitos. 34 Letras carrega essa ambivalência.
Outro ponto que, a meu ver, merece ser lembrado se refere à dificuldade de encontrar definições e categorias que dessem conta do corpus analisado. Porém, nem por isso deixei de empregá-las. Sintoma de nosso próprio tempo, que recusa as compartimentalizações estanques e promove o esmaecimento das fronteiras, esta dificuldade foi enfrentada de modo a não perder de vista a tensão imbuída em cada categoria, mas valendo-me delas para fins didáticos. Até porque, também é preciso advertir que as estratégias pós-modernas não implicam a eliminação das modernas, mas são seus desdobramentos.
Assim, utilizo a metáfora do legislador para ler José ciente de que, em alguns textos, se delineia a própria impossibilidade de nos atermos a tal categoria. Em 34, enxergo o intérprete sem perder de vista que ainda é uma figura incipiente, mas que, diante da impossibilidade de atuar com práticas legislativas (e essa já é uma questão resolvida em 34), no abandono da suposta universalidade da verdade, do juízo e do gosto que permitiam aquele de arbitrar, ensaia alternativas de tradução entre tradições culturais. Nesse sentido, ao tratar da nova ficção que hibridiza crítica e ficção, das histórias em quadrinhos, da música ou do cinema, a revista contempla outros artefatos culturais. Com Zygmunt Bauman, afirmo que a postura do intérprete deve ser a de responder apropriadamente pelas regras que guiaram sua leitura fazendo válida ou autorizada a interpretação. Cabe ao intérprete, nessa perspectiva, o esforço por descobrir, e não por legislar, as regras que estão por trás dos acordos.
Com o lema do pluralismo nos editoriais, em 34 Letras, o concretismo se auto-elege a vertente poética pós-moderna por excelência, distribuindo os louros, citações e elogios. Ora, não há aí resquício de pluralismo, mas sim uma jogada estratégica de marketing que os coloca na “crista da onda”. Teoria francesa pós-estruturalista de um lado, a crítica brasileira renomada de outro, um layout arrojado bancado com as benesses da lei Sarney, enfim, um “prato cheio” para desfilar o figurino “alta cultura”.
Quando a revista surgiu, o muro de Berlim estava preste a ser derrubado; quando acabou, restavam ruínas. O mesmo não aconteceu com o Grande Divisor, para retomar a metáfora de Andreas Huyssen, que o define como o tipo de discurso que insiste na distinção categórica entre alta arte e cultura de massa. Discurso que vem sendo posto em xeque pelos recentes desenvolvimentos das artes, do cinema, da literatura e da crítica, desafiando a “canonizada dicotomia alto/baixo” e a barreira que mantinha os bárbaros do lado de fora e a cultura do lado de dentro. No estudo de 34 Letras, concluo que a revista timidamente contribui com a derrubada do muro, sendo que ainda se identifica ali o discurso que reafirma a dicotomia, elegendo produtos já legitimados na esfera “cult”. A revista ensaia o salto no muro entre cultura letrada e cultura de massa, o trânsito nas duas esferas, mas inexoravelmente opta, com preponderância, por escolhas que pertencem à cultura erudita. Este é o paradoxo da revista que, por outro lado, abriga as teorias a-sistemáticas do neo-nietzscheanismo francês. Assim, há os guardiões do muro, mas há também os que dele arrancam pedaços.
É também interessante notar, por exemplo, que, ao observarmos o referencial teórico de 34 Letras, percebe-se um trânsito efetivo entre as disciplinas. Ou seja, a filosofia, a antropologia, a sociologia, a psicanálise, para citar algumas, servem para se pensar questões da crítica literária e vice-versa. Em grande parte das revistas da década de 70, ainda verificamos uma compartimentalização que reproduz as divisões de departamentos das universidades, o que definitivamente se borra em 34.
Nem de forma celebratória nem apocalíptica eu gostaria de finalizar esta apresentação. É necessário seguir pensando e dialogando sobre as estratégias e as possibilidades de uma revista, um artefato cultural, assim como sobre o próprio lugar do crítico no cenário da pós-modernidade. Afinal, há possibilidade de se conjugar uma atitude crítica com a lógica pluralista? É ponto pacífico a necessidade de redefinir o sentido de nossa viagem, como disse Bauman. Legislar, ter controle, emitir pronunciamentos de autoridade, segregar, classificar são tarefas que não têm mais respaldo nem sentido na cena contemporânea, e isto pode ser bastante positivo. Sobretudo, se estivermos dispostos a conversar.
[1] Apud Maria Lucia de Barros CAMARGO. Poéticas contemporâneas: marcos para uma pesquisa, Continente Sul Sur – Revista do Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, n.2, novembro, 1996, p.113.
[2] Hector René LAFLEUR, Sergio PROVENZANO e Fernando ALONSO. Las revistas literárias argentinas: 1893-1967, se valem do conceito “revista literária” como “exteriorização de um grupo ou conjunto de intelectuais que buscam, através delas (as revistas), a difusão de sua mensagem, livres de objetivos comerciais e à margem do financiamento oficial”. Apud Maria Lucia de Barros CAMARGO. Op.Cit. p.116.